sábado, 24 de julho de 2010

Sobre regar flores de asfalto e reabrir gaiolas


Eu me lembro de ter passado pela sua casa e ter reparado nas janelas trancadas, nas cortinas fechadas. Na porta, você tinha pendurado uma placa de solidão sitiada. Eu pulei o portão e tive que fugir do cachorro zangado, mas quando fui bater na porta, não saiu som algum. Você tinha guardado todo som. E andava descalça, para não escutar os próprios passos. Soube disso porque seus sapatos, aqueles que você gosta tanto, estavam do lado de fora. Acho que você quis sumir. Só conseguia pensar em quando a gente vai ao médico pedindo a tal pílula da invisibilidade e ele diz que não pode receitar. Encostei o ouvido na porta e ouvi a sua dor consolidando o ar. Ouvi o seu pesadelo como um eco do meu próprio passado. Eu quis gritar pra te acordar, mas não tive voz.
Quis te estender a mão e dizer para você não soltar, enquanto correria para longe, te arrastando comigo. Fugir dos campos de concentração emocional dos poços. Quando você abriu a porta, já era inverno e as noites quentes de verão demorariam a voltar. Quis deitar você no meu colo e desembaraçar seus cabelos com os dedos. E eu te entendo tanto, mas tanto, que talvez preferisse não entender. Ou, ao menos, entender de outro modo. De um jeito que não fosse a repetição de tanta angústia. De um modo que não fosse o reflexo de tanta dor. Eu não queria, juro que não queria, que você também conhecesse essa estrada tão escura. Eu queria mesmo, era que nada mudasse para você. Que fosse você o espelho em que eu pudesse me refletir, e não o contrário. Mas sabe? Eu vou tentar limpar essa minha imagem. Por você. Para que possamos refletir uma imagem mais bonita que essa. Eu sinto vontade de acreditar nisso com tanta força, que a verdade tenha medo de me contrariar e aconteça. Sabe? Tem uma hora que a gente precisa parar de desistir dos sonhos. Tem vezes, que só band-aid não resolve. Tem que suturar e esperar cicatrizar. Tem uma hora que precisamos pegar uma caixinha de costura e remendar a asa rasgada. E você pode acreditar em mim, dá pra voar de novo mesmo com remendo. Quanto ao que fazer com tantos cacos, depende das cores. Se forem pretos, varre pra fora e joga no lixo. Se coloridos, faça um vitral para o enorme buraco que se abriu na parede. Tem uma hora, que o sol vai poder entrar novamente pelas frestas das janelas e você vai querer trocar as cortinas. E é só o começo, porque pra mágica acontecer, é preciso confiar nas mãos do mágico e não nos segredos que ele esconde. Tem coisa que nunca vamos descobrir o motivo. Então é melhor simplesmente aplaudir ou vaiar o show. As folhas dependem da semente que se planta. Eu te ajudo com os adubos. Eu trago o sol pro teu vitral. E espero você abrir a porta mais uma vez pra te perguntar: "Você também se cansou da tristeza que nos consome no fundo dos poços?". E se você me responder que cansou de cavar para baixo, já estaremos mais perto do verão outra vez. Vamos remar contra a corrente e desafinar no coro dos contentes*. Abre a tua gaiola, minha amiga. Você não é tranca e nem pouso. Se faltar amor a gente vira hippie. Mas se faltar encanto, a gente faz as malas e foge com o circo. Você casa com o mágico. Eu, com o trapezista. E se faltar o vento, a gente inventa*. Depois é só descobrir um jeito mágico de voar, só pra ver o mundo de outro ângulo. Juntas, compraremos uma escola de sonhos abandonada. Vamos jogar fora todos os restos de mágoas, potes de tristezas e ensinamentos obscuros dos quadros negros. Compraremos quadros brancos, faremos tudo de novo. Vai ter reforma. Cores vivas nas paredes. Brinquedos coloridos no pátio. Luz do sol alimentando o interior ao invés de energia negativa. É só mudar a disciplina, minha amiga. Consegue imaginar os novos sonhos, pequeninos, crescendo e se formando? Consegue imaginar eles graduados, enfrentando o mercado de desilusões afundadas? Consegue ver o progresso de reeducar os sonhos? Depois da reforma necessária, a escola estará lá, esperando os novos alunos que teremos que matricular. E no final, na parede da diretoria, nossa foto permanecerá emoldurada com a inscrição: "As que acreditaram".

Vamos estocar sonhos para o próximo inverno. As cigarras não freqüentam a mesma escola que eles.



*Trechos de “Pose”
~Engenheiros do Hawaii




Porque esse texto tem dona!
Foi escrito pra ela!
(♥)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Criatura


Mora dentro de mim uma criatura que a tudo devora. Um ser faminto que se alimenta dos meus segredos e sentidos. Um monstro criado e cuidado com o melhor que havia em mim, esperando uma fresta em um sonho para poder escapulir e se tornar real. É uma criatura selvagem e indomável que só sabe reagir com violência diante de qualquer problema. A criatura acha que tudo pode resolver no ataque, que tudo pode acabar embaixo dos próprios pés. Ou patas, não sei. A criatura não tolera futilidades. Rosna sempre que ouve uma injustiça. Quase morre de rir quando escuta alguma bobagem ou meia verdade. E a criatura não se deixa enganar. Tem instinto, intuição e fome. Uma fome de realidade tão grande, que não se sacia com nenhuma das ilusões com as quais a alimento.
A criatura quer escapulir aqui de dentro e se apoderar de tudo o que eu tenho e de tudo que eu sou. Isso porque ela não agüenta mais se contentar com as sobras do que eu já fui. Eu preciso ser salva de mim mesma antes que o meu lado selvagem tome conta de mim.

Não seria boa coisa.

Seria?




Ps: Estou voltando, voltando...
Em breve!!!
Já, já... Só mais um pouco de paciência!

Ps2: Esperem por mim, meus rascunhos estão lotados de novos textos
:-)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Number 41

Um pouco de chega pra lá


Come and see
I swear by now I'm playing time against my troubles, oh
Oh, I'm coming slow but speeding.
Do you wish a dance and while I'm in the front
My play on time is won
Oh, But the difficulty is coming here

I will go in this way and find my own way out
I won't tell you to stay but I'm coming to much more
Me,
All at once the ghosts come back
Reeling in your mind
Oh, What if they came down crushing?
I used to play for all of the loneliness that nobody notices now
Oh, I'm begging slow, I'm coming here

I´m waiting

I wanted to stay
I wanted to play
I wanted to love you

I'm only this far and only tomorrow leads my way

I'm coming waltzing back and moving into your head
Please,
I wouldn't pass you by
Oh, I wouldn't take any more than (what I need)
What sort of man goes by?
I will bring water
Why won't you ever be glad?
It melts into wonder
I came in praying for you
Why won't you run into the rain and play?
And let the tears splash all over you?


Number 41
~Dave Matthews Band
(o cara que sabe bem o que diz)

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[Tecla Sap] Venha e veja / Eu juro que agora estou usando o tempo contra meus problemas / Estou chegando lentamente porém acelerando / Você quer dançar? E enquanto eu estou na frente de você / A corrida por tempo está ganha / Mas a dificuldade está chegando aqui / Eu irei por este caminho e encontrarei minha própria saída / Não te direi para ficar mas estou me aproximando muito de mim / De uma vez só os fantasmas voltaram / E estão se aglomerando em sua volta / E se eles viessem te enlouquecendo? / Lembre-se de quando eu costumava tocar por toda a solidão que ninguém repara agora / Estou calmamente implorando, / Estou vindo aqui / Apenas esperando, / Eu queria ficar / Eu queria brincar / Eu queria te amar / Ainda estou longe e apenas o amanhã é quem me guia / Estou vindo deslizando, entrando em sua mente / Por favor, / eu não ignoraria esse fato / Eu não excederia meus limites / Que tipo de homem faz isso? / Eu lhe trarei água / Por que você nunca fica feliz? / Isso me faz imaginar / Eu cheguei clamando por você / Por que você não foge no meio da chuva e brinca? / E deixa todas as lágrimas se espalharem por você? [/Tecla Sap]




Deixo-os em boa companhia!
Enquanto não tenho net e só posso postar nos raros momntos que venho na lan house,
guardo as crônicas inéditas pra mais tarde.
=P

terça-feira, 15 de junho de 2010

Concentração


Há pouco tempo, havia descoberto seu maior segredo: era capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Constantemente, alternava-se entre onde estava fisicamente e espiritualmente. Por alguns momentos, se concentrava em um ou outro professor. Instantes depois estava longe dali, completamente alheia às coisas ao redor. Sem sequer mudar o ritmo da respiração, viajava incríveis distâncias sem que notassem sua breve ausência. Por vezes concentrava-se nas conversas durante os almoços em família. Em seguida, esquecia-se das pessoas na mesa e lembrava-se apenas de si mesma. Um mergulho no invisível mundo de seu inconsciente particular. Um ou dois segundos de introspecção e um olhar perdido no vazio. Depois, como se nada tivesse acontecido, voltava à conversa. Sabia que em poucos segundos, se perderia novamente em um outro plano, mas começava a achar que era até bem divertido ter tanta dificuldade de concentração.




Amores do meu coração
Ainda estou sem net em casa.
E sem trampo.
Desculpem a ausência e obrigado por não me abandonarem.
Prometo que visito e leio todos quando puder.
=*

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cecília ou Manoela


Daniel era 5 anos mais velho que eu. Há cinco anos atrás, ele namorava a Manoela. Quase todo mundo sabia que eles estavam juntos, mas quem não os conhecia, julgava que se tratavam de bons amigos. Isso porque o Daniel não era dado a demonstrações públicas de afeto. Manoela, apaixonada, aceitava e jurava que a sós, Daniel era um gentleman. Depois de muito tempo de namoro, Daniel e Manoela foram morar juntos. Dividiram o financiamento do apartamento. Dividiram as contas com as compras dos móveis e eletrodomésticos. Dividiram as contas do mês, as compras do mês, o condomínio e a taxa de manutenção do playground que nunca usaram. Mas não dividiram o mesmo sobrenome. Isso porque o Daniel não quis se casar com a Manoela. Ele dizia que casamento era bobagem, que jamais se casaria com ninguém e que não precisava de um papel pra reafirmar que estava junto com a Manoela.

Isso foi há uns cinco anos atrás. Semana passada encontrei o Daniel de mãos dadas na rua com uma outra moça, chamada Cecília. Casado. Soube então, que ele e Manoela já não estavam juntos há um bom tempo.
Daniel e Cecília se conheceram a alguns meses, menos de um ano. Namoraram um tempo, noivaram e casaram. Perguntei se ele tinha mudado de opinião quanto aos papéis, documentos e casamentos e ele respondeu-me apenas que a situação agora era outra. Cecília é moça pra casar. E eu nem sei dizer se a Cecília é mesmo uma mulher de sorte.

Hummm...

A verdade, é que eu realmente acho que o Daniel não gostava da Manoela. Acho que tinha vergonha de andar de mãos dadas com ela na rua. Coisa que não acontece com a Cecília. Com ela, ele anda não apenas de mãos dadas, mas também de aliança no dedo, pose de moço sério e documento assinado com sobrenome compartilhado.
Fico pensando nas moças que, como a Manoela, acreditam em caras como o Daniel. Moças que acreditam que os caras gostam delas mesmo quando se negam a apresenta-las aos amigos ou a andar com elas de mãos dadas pelas ruas. Caras que não apresentam as moças para a família dizendo que ainda é muito "cedo". Caras que não assumem compromissos sérios, que propõem relacionamentos abertos, que não querem estar sempre perto ou não atendem telefonemas em fins de semana.
Manoela andou fazendo história.
Fico pensando nas moças, que como ela, acreditam em todo tipo de desculpa. Às vezes só para terem aquela sensação de que não estão sozinhas. Mas estão. Talvez no fundo saibam disso.

Eu acho que se uma pessoa realmente gosta da outra, não tem porque agir como Daniel agia. Se o cara gostar mesmo da moça, vai andar de mãos dadas sem precisar de consentimento. Vai querer estar perto dela todo o tempo que puder e for conveniente. Vai apresentar pra família, vai freqüentar a casa, vai almoçar junto dia de domingo. Se o cara realmente gostar da moça, vai querer-la só pra ele. Vai ser só dela. Vai enchê-la de beijos, esteja em casa, na rua, no shopping, no cinema ou na balada. Vai abrir mão de algumas coisas por causa dela. Vai telefonar pra jogar conversa fora quando não estiverem juntos. Vai deixar tão óbvio que é dela que gosta, que todos que os conhecem não precisarão nem perguntar se é dela mesma que ele gosta.

Quando alguém não age assim, (ou ao menos parecido com isso) não adianta vir com desculpas que a verdade é uma só: ele não gosta de você.
E não tem explicação que me convença. Não tem nem "mas" e nem "e se". O resto é tudo lenda urbana.
Se o cara que está com você for como o Daniel com a Manoela, ele não merece o seu amor.

E o Daniel pode ser qualquer um. Daniel pode ser Antônio, Tiago, Pedro, João, José...
O que você tem que saber mesmo é se você é Cecília ou Manoela.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Salada Musical - III

Se tu quiseres saber quem eu sou...



Eu sou a soma de tudo que vejo. Eu sou daqui, eu não sou de marte. Eu sou letra simples. Eu sou tão menina, meu tempo passou. Eu sou colombina, eu sou pierrot. Eu sou a luz das estrelas. Abra a janela e veja: eu sou o sol! Eu sou a mosca que posou na sua sopa. Você não sabe de onde venho, o que eu sou nem o que tenho. Eu sou terrível. Eu sou uma fera de pele macia. Cuidado, garoto, eu sou perigosa! Eu sou mais eu, mais gata, numa louca serenata. Eu não sei na verdade quem eu sou, já tentei calcular o meu valor. Eu sou neguinha? E eu sou rebelde? Acho que eu sou fruto da imaginação, a imagem viva da ilusão. Eu sou assim. Se você quer ficar, nunca vai saber onde vou. Eu sou assim. O que parece ser, não é o que sou, não! Eu sou do povo, eu sou um zé ninguém! E eu irei em qualquer direção, e voltarei. Eu sou meu guia. Mas o fato de eu ter mudado minha vida, não mudou quem eu sou. Você é desejo, eu sou paixão. Mas você não tem muita chance, não me venha com romance. Porque eu sou free, free lance! Eu sou sua alma gêmea, sou sua fêmea, seu par, sua irmã. Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto). Sou perfeita porque, igualzinha a você, eu não presto. E eu sou rica, rica, rica de marré de si. Mas eu sou feita pro amor da cabeça aos pés e não faço outra coisa do que me doar. Se causei alguma dor não foi por querer, nunca tive a intenção de te machucar. Eu sou parte de você, você não é parte de mim. Eu sou sem compromisso, sem relógio e sem patrão.
Eu sou irresponsável, me chame assim mesmo. Eu não sou do meio, sou do princípio ao fim. Eu não sou do meio, não sou do meio termo. Quero todos os gestos ou nenhum. Você sabe como eu sou, como eu era e serei. Só você pode saber. Eu quero ver você dizer que sou ruim. E sabe do que mais? Eu sou como o tambor que ressoa mais dentro dele que da pessoa. Assim mesmo eu sou. Sou de qualquer jeito, nem tudo eu respeito, pra onde for o vento eu vou. Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão. Eu sou um déspota esclarecido nessa escura e profunda mediocracia. Diga ao primeiro que passa, que eu sou da cachaça mais do que do amor. Acontece que eu não tenho escolha, por isso mesmo é que eu sou livre. Se o que eu sou é também o que eu escolhi ser, aceito a condição.

Eu sou assim... Canto pra me mostrar de besta.
Mas se é pra eu tentar ser alguém bem melhor, deixa eu tentar ser quem eu sou.






Eu adoro fazer esses posts musicais





Tem um monte de texto novo nos rascunhos (mais de 30).
Mais um monte que eu estou terminando de escrever.
Só que não quero postar enquanto estou sem internet em casa 
e não posso acompanhar a opinião e as perguntas de vocês... 
#mimimi

Internet de pc emprestado e lan house é muito ruim =(