Hoje eu vim falar sobre o último livro que li. O último mesmo, terminei de ler essa madrugada - porque não consegui dormir enquanto não terminei. E olha... que livro maravilhoso ♥
O título original é To Kill a Mockingbird, escrito em 1960 pela autora norte-americana Harper Lee. É um dos mais importantes clássicos da literatura e vencedor do Prêmio Pulitzer em 1961, um ano após a sua publicação. Vendeu mais de 40 milhões de cópias ao redor do mundo, foi traduzido para mais de 40 línguas e em 1962 virou um filme que também foi premiadíssimo: Oscar de melhor ator para Gregory Peck, Melhor roteiro adaptado, Melhor trilha sonora, entre outros. Ele também foi escolhido pelo Library Journal como o melhor romance do século XX e eleito pelos leitores do Modern Library um dos 100 melhores romances desde 1900.
Perceberam que essa história não veio ao mundo de bobeira, né?
Todo marcado kkkkk
Tratava-se de um livro raro e esgotado, até que algo extraordinário aconteceu.
A editora HarperCollins divulgou a notícia que chamou de um “acontecimento literário extraordinário”: a autora Harper Lee vai publicar um segundo romance 55 anos depois de seu clássico "O sol é para todos".
Uma amiga e advogada de Lee, encontrou o manuscrito junto com os originais de ' Sol é para todos' e convenceu a autora de que ele merecia ser publicado. Lee se disse surpresa ao encontrar o manuscrito após tantos anos, tinha se esquecido da existência dele e ficou muito em dúvida quanto a publicação. Ela pediu a opinião de amigos e pessoas próximas e graças a essas pessoas, o livro será laçado.
A nova obra que vai se chamar "Go Set a Watchman", foi escrita nos anos 50 e estava guardada até hoje porque Lee, que hoje com 88 anos, dizia-se satisfeita com o sucesso do primeiro livro e não achava o manuscrito tão bom quanto ele. O novo livro trará personagens que conhecemos (e amamos) no primeiro livro na fase adulta (minha adorada Scout ♥) e deve chegar ao mercado literário em Julho de 2015 (tá pertinho, socorro). Por isso também a minha "pressa" em falar logo dele aqui no blog: para que vocês tenham a oportunidade e o prazer de ler esse livro maravilhoso antes. Sim, porque graças a essa notícia bombástica no mundo literário, a Editora José Olympio (obrigada, seus lindos) relançou o clássico 'O Sol é para todos' numa edição linda e novinha em folha (vejam as fotos ao longo do post)!
"Se você aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo tipo de gente. Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas pelo ponto de vista dela. Precisa se colocar no lugar dela e dar umas voltas."
O livro conta a história da pequena Jean Louise (ou Scout), seu irmão 4 anos mais velho Jean e seu pai, o advogado Attticus. A história é narrada pelos olhos de Scout, que é uma menina esperta e inteligente (queria pra filha), sempre atenta aos acontecimentos ao seu redor. Scout e Jean são órfãos de mãe e foram criados pelo pai e pela empregada negra, Calpúrnia. Eles moram em Maycomb, um condado no sul dos Estados Unidos e a história se passa nos anos 30, logo após a Grande Depressão.
É impossível não se apaixonar pela Scout e sua curiosidade e ingenuidade. É bom lembrar que no começo do livro, ela tem cerca de 6 anos. Como a história é contada por ela, a narração tem essa característica inocente e muitas vezes o leitor já compreendeu o porquê de certas injustiças e convenções, enquanto Scout ainda tenta compreender. O tema central do livro é trabalhado através da compreensão que ela vai tendo do que acontece ao seu redor.
“Tia Alexandra era obcecada pelas minhas roupas. Como eu podia querer ser uma mulher elegante usando suspensórios masculinos? Quando eu disse que usando vestido eu não conseguia fazer nada, ela retrucou que eu não devia fazer nada que exigisse calças compridas."
Scout conta as aventuras e travessuras que aprontou junto de seu irmão e do melhor amigo Dill. Eles exploram o perfil da sociedade naquela época, suas peculiaridades e seus defeitos. A cidade tem um terrível perfil antiabolicionista e as crianças tem uma dificuldade de entender as injustiças que presenciam.
Scout, Jean e Dill passam o verão juntos. Um dia, resolvem descobrir porque o vizinho Arthur Raddley vive recluso e nunca é visto. As crianças bolam planos mirabolantes e fantasiosos para fazer Arthur sair de casa. A partir desse acontecimento (Scout acha que foi a partir disso), a história se desenrola para uma série de acontecimentos e o leitor se vê envolvido em uma história racismo, discriminação, preconceitos históricos e direitos humanos.
Para colocar ordem nessa balbúrdia com o vizinho, temos Atticus que é um homem justo e um super pai para as crianças, que o amam e respeitam mais do que qualquer coisa no mundo (e eu também).
Atticus é advogado e vive uma rotina tranquila, mas se envolve num caso polêmico que acaba mudando a sua rotina, das crianças e de toda a sociedade local. Sociedade essa, que é extremamente preconceituosa e vive um período histórico que foi muito difícil para os negros. Era (ou é?) uma realidade muito cruel e injusta. Nesse cenário, Aticcus é nomeado para defender um negro, Tom Robinson, acusado de estuprar uma mulher branca. O comportamento dos moradores de Maycomb muda drasticamente, as pessoas mostram seu pior lado e tudo isso é acompanhado pelo olhar de Jean e Scout. As crianças e seu pai se tornam alvo de descriminação por causa de Tom Robinson.
"-Quase todo mundo acha que está certo e que você é que está errado.
-Essas pessoas têm o direito de pensar assim, e têm todo o direito de ter suas opinião respeitada - considerou Atticus - Mas antes de ser obrigado a viver com os outros, tenho que conviver comigo mesmo. A única coisa que não se deve curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa."
'O Sol é para todos' é um livro atemporal e discute situações que poderíamos muito bem estar lendo nos jornais de hoje. Uma vez que começamos a ler, nos vemos envolvidos com a história e não conseguimos largar. A narrativa é fluida, a linguagem é simples e é muito fácil de acompanhar. Os personagens são muito bem construídos, tanto os principais quanto os secundários. Você quase pode supôr a reação que terão na página seguinte após um ou outro acontecimento de tão bons que são. Eu sempre me interessei por esse livro, mas como disse no começo, ele era esgotado e difícil de encontrar (e quando encontrava, custava caro). Nesse caso, a fama faz a cama e tudo que se fale dele ainda é pouco.
Desde o título 'To kill a Mockingbird' que faz todo sentido na narrativa (e se você prestar atenção, é a mensagem do livro) até a questão filosófica central (que também encaixa perfeitamente no nome traduzido da obra), passando pela humanidade e o caráter de Átticus transmitido para seus filhos e o amadurecimento de Scout e Jean, arrisco dizer que é o melhor livro de 2015 e um dos melhores que já li na vida. Será difícil que um outro livro o supere tão em breve - talvez o próximo de Harper Lee... Será?
“As coisas sempre são melhores pela manhã”
Eu estou ansiosa pelo lançamento do próximo livro! E vocês?
Não ia ter post, não ia ter nada. Mas enquanto eu copiava uma matéria da faculdade, tive uma ideia e aqui estou ao invés de estar estudando. Foco: tem mas acabou!
Me amem, não me julguem.
Toda a preguiça que eu estava de fazer um post sobre o dia internacional da mulher virou euforia ao pensar que, ao invés disso, podia vir aqui e indicar mulheres incríveis para vocês lerem.
01-Malala Yousafzai
Malala, a paquistanesa que foi baleada na cabeça pelo Talibã porque queria estudar e não se calou diante dos absurdos que os terroristas fizeram no Vale do Swat, onde morava. Malala tinha apenas 15 anos e quase pagou o preço de querer estudar com a vida. Poucos acreditavam que ela sobreviveria, mas nem uma bala na cabeça pode detê-la. Malala é a pessoa mais jovem a ganhar o prêmio Nobel da Paz. Menina corajosa e admirável. Ela vem de uma cultura onde a mulher não tem voz, mas nem por isso Malala se calou.
Em seu livro "Eu sou Malala" publicado no Brasil pela Companhia das Letras, a jovem conta como o Talibã invadiu o Vale do Swat e todos os absurdos que aconteceram no Paquistão. A maioria preferia se calar, mas Malala e seu pai sequer abaixaram a voz. A campanha da jovem virou uma campanha internacional e Malala é uma das 100 pessoas mais influentes do mundo segundo pesquisa da Time.
Hoje em dia, Malala vive na Inglaterra, onde foi internada durante seu tratamento e recuperação, mas não esconde de ninguém o desejo de voltar para sua terra, apesar das ameaças de morte que recebe caso faça isso. Após ganhar o Nobel da Paz, a estudante-ativista declarou que um dia deseja ser primeira ministra do Paquistão. Se eu fosse vocês, não duvidava dessa menina.
"Os extremistas têm mostrado com o que eles querem travar sua luta: contra uma garota com um livro."
Caso ainda haja alguma dúvida, aconselho assistirem o video abaixo:
Conheci Chimamanda durante uma disciplina no meu primeiro ano da faculdade e fiquei apaixonada por ela desde então. Chimamanda é uma premiada autora nigeriana, considerada uma das mais importantes vozes da literatura afriacana. Quando começou a escrever, ela reproduzia o tipo de história que estava acostumada a ler nos livros americanos. Quando conheceu a literatura africana, ficou apaixonada e decidiu escrever sobre aquilo que conhecia: seu país, sua cultura. Chimamanda logo percebeu que a maioria dos livros sobre a África que os leitores do mundo inteiro conhecem, são feitos por autores que não são africanos - e com isso, uma imagem nem sempre verdadeira é passada sobre a África. Em busca de mudar essa perspectiva, ela deu uma palestra no TED sobre "Os perigos de uma história única".
Suas histórias não-únicas tem tomado grandes proporções e se tornado cada vez mais conhecidas.
Negra, escritora, nigeriana e feminista, em outra oportunidade no TED, Chimamanda falou sobre feminismo na palestra "We should all be feminists" (Todos nós deveríamos ser feministas) e seu discurso foi publicado em um livro pela Companhia das Letras. Além disso, a cantora Beyoncé incorporou várias frases desse discurso em sua música Flawless, trazendo mais notariedade para Chimamanda.
Ela fala de cultura africana, de racismo, de educação, de feminismo, de construção de gênero... e ela pode falar sobre o que quiser que eu vou querer parar para ouvir ou ler.
"Meu editor nigeriano e eu começamos uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para escolas estaduais que não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar muitos e muitos workshops, de leitura e escrita para todas as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias. Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida." - Chimamanda Adichie
Jeannette Walls é uma das minhas escritoras preferidas e eu devorei absolutamente todos os livros escritos por ela. Mas vou falar apenas de um deles: O Castelo de Vidro. A autora sempre escondeu de todos o seu passado, mas quando resolveu contar sua história, ficou por sete anos na lista de best-seller do New York Times. Jeannette teve uma infância miserável. Ela e os irmãos vieram de uma família decadente: pai bêbado e uma mãe artista frustrada sem sucesso. Jeannette diz que não sentia falta de amor e que os pais criaram filhos independentes e talentosos, com habilidades para se virarem sozinhos e cuidarem uns dos outros. Porém, seus pais eram negligentes por deixar os filhos sem comida, sem uma estrutura mínima e por muitas vezes eles tinham que revirar o lixo da escola em busca de restos de comida para não morrerem de fome. Eles não tinham moradia fixa, viviam como nômades fugindo das situações mais extremas em que viveram até virarem sem-teto.
Jeannette e seus irmãos nunca deixaram-se abater ou tiveram pena um do outro. Trabalharam duro e lutaram juntos para vencer todas as dificuldades que lhe eram impostas. O Castelo de Vidro é um livro para amar e odiar. Você vai amar a determinação dessa família, seus sonhos e a maneira como demostram amor uns pelos outros, mas vai odiar a negligência e a irresponsabilidade dos pais. Você vai amar o modo como os pais dão liberdade para os filhos serem quem são, mas vai odiar as privações que eles impõem aos filhos.
Mas principalmente, você vai amar Jeannette e a determinação com que ela trilhou a vida e batalhou para chegar onde está.
O livro é a biografia da jornalista Jeannette Walls e mostra como ela aprendeu a extrair a beleza em meio a dor. É um livro lindo, chocante, revoltante e apaixonante ao mesmo tempo
“Escrever as memórias é como entregar a vida a alguém e dizer: eis pelo que passei, eis quem sou, talvez com isso você consiga aprender alguma coisa. É dividir honestamente o que pensamos, sentimos e sofremos. Se conseguir fazer isso com eficiência, alguém pode receber a sabedoria e os benefícios da sua experiência sem ter de vivê-la.” - Jeannette Walls
Lionel está em um páreo duro com Jeannette na minha lista de autoras preferidas. Eu gostaria de ter um adjetivo para descrever a escrita da Lionel, mas não consigo dizer nada além de "fodástica". Quem já leu, há de concordar comigo. Seus livros parecem cutucar o leitor, é uma leitura inquietante, como se Lionel nos acertasse tapas sem mão bem no meio de nossas fuças. Tempos atrás estava tão incomodada com o que lia, que abandonei um livro dela na metade para refletir sobre o que eu estava fazendo da minha própria vida - nesse nível, gente!
Eu não sou capaz de indicar apenas UM livro da Lionel, então vou falar sobre o mais famoso deles: "Precisamos falar sobre o Kevin". Eu não fui capaz de resenhar para o blog, porque fica um imenso "nada a dizer" quando terminamos de ler essa obra. É um romance impactante, que te tira do eixo de um modo tão... tão... que não dá para explicar. A história trata sobre a visão de uma mãe atormentada pelo comportamento do filho desde seu nascimento até se tornar o autor de um massacre escolar. Ele é o sétimo livro da Lionel e ele foi recusado por mais de 30 editoras devido ao seu teor. Em 2005, no entanto, o livro ganhou o prêmio Orange Prize, na Grã-Bretanha.
Outra autora que eu descobri no meu primeiro ano de faculdade e fiquei fascinada por ela.
Carolina foi uma mulher, negra, favelada e extremamente pobre que catava lixo e reciclava cadernos e folhas que encontrava para escrever seus diários. Quando a chamavam de "mendiga e suja”, ela dizia dizia que, embora andasse suja, não era mendiga: “Mendigos pedem dinheiro; eu peço livros”. A Vida de Carolina mudou quando foi descoberta pelo repórter Audálio Dantas, na favela do Canindé, em São Paulo. Enquanto ele preparava uma reportagem sobre um parque infantil, viu uma mulher negra de 43 anos gritando para os adultos que brincavam no tal parque: “Onde já se viu uma coisa dessas, uns homens grandes tomando brinquedo de criança! Deixe estar que eu vou botar vocês todos no meu livro!”. Como todo jornalista (essa raça ruim a qual pertencerei um dia, rs) ele foi atras dela e descobriu pilhas e pilhas de cadernos que ela escrevia, entre eles uma espécia de diário onde Carolina descrevia o dia-a-dia da vizinhança na favela. Carolina Maria de Jesus ficou mundialmente conhecida pelo seu livro "Quarto de Despejo", um clássico de nossa literatura, traduzido em 13 idiomas e com mais mais de 80 mil exemplares vendidos só no Brasil. Um best seller.
Na década de 1990, o pesquisador brasileiro José Carlos Sebe Bom Meihy e o norte-americano Robert Levine, publicaram o livro "Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus" (editora UFRJ, raro, esgotado, impossível de encontrar). Também publicaram duas coletâneas de inéditos da escritora.
Carolina escreveu todos os dia, até sua morte.
Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora.
Alice Ruiz é uma poetiza curitibana que começou a escrever contos com 9 anos de idade, mas só lançou seu primeiro livro aos 34 anos. Sua obra era secreta.
Aos 22 anos, Alice se casou com o escritor Paulo Leminski, para quem mostrou seus escritos pela primeira vez na vida. Leminski ficou muito surpreso e encantado e comentou que ela escrevia haikais - Alice nem sabia o que eram haikais, mas apaixonou-se pela estrutura japonesa de fazer poemas e traduziu quatro livros de autores japoneses.
Alice publicou, até agora, 21 livros, entre poesia, traduções e uma história infantil. Alice ganhou 2 prêmios Jabutis: um com a obra "Vice Versos" e outro com "Dois em Um". Ela teve poemas publicados em 6 países (Estados Unidos, Bélgica, México, Argentina, Espanha e Irlanda). Alice e Leminski tiveram três filhos: Miguel Ângelo Leminski, Áurea Alice Leminski e Estrela Ruiz Leminski - que também é escritora.
Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Quando adolescente, lia muito Marina. Ela é responsável por várias decisões e boas escolhas que fiz na minha vida. Eu sabia alguns de seus textos de cor e já briguei feio na internet por publicarem o texto "Eu sei, mas não devia" com o nome de outro autor. Ela é casada com um autor que eu aprendi a gostar com a minha avó, que me deu um livro dele: Affonso Romano de Sant'Anna.
Marina escreve para adultos e crianças, sua obra passeia pelas crônicas do cotidiano, poesias, contos ficção e textos jornalísticos. Ela tem 33 livros publicados. Dos infanto juvenis, meu preferido é "Ana Z.Aonde vai você?", dos adultos "Contos de amor Rasgados" e "Por falar em amor" ♥
Marina foi ganhadora do Prêmio Jabuti em 2010 pelo livro "Passageira em trânsito".
"A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma."
Eu tinha outras ideias para descrever nesse post, mas se estou indicando escritoras pelo dia da mulher, desculpem, não posso não falar de Simone! Se for para falar de mulher, de feminismo ou de filosofia, suas obras são de leitura obrigatória. O livro mais famoso dela, "O Segundo Sexo" é chamado de "Bíblia feminista". Todos os livros de Simone abordam temas existencialistas e sempre avaliam qual é o papel da mulher no mundo. Em seus romances (porque ela não escreveu apenas sobre feminismo) ela examinava o amor por diversos pontos de vista: o ciúme, a raiva, a frustração. Além de “O Segundo Sexo”, seus livros mais conhecidos são “Os Mandarins”, “A convidada”, “A cerimônia do adeus”, “A longa marcha”, “A mulher desiludida” e “As belas imagens”. Porém, o nome de Simone é mesmo um ícone do feminismo. Ela manteve um relacionamento com o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre por toda a sua vida. Simone e Sartre se conheceram em 1929 quando Simone se graduou em filosofia. Desde então eles mantiveram um relacionamento aberto, que não era bem aceito na época, porque os dois se envolviam com outras pessoas e compartilhavam as experiências adquiridas (sério gente, poliamor hahaha) No livro "A Cerimonia do Adeus" publicado em 1981, Simone se despediu do companheiro que faleceu em 1980. Daí em diante Simone começou a abusar do álcool e de anfetaminas. Simone faleceu em abril de 1986, aos 78 anos e foi enterrada ao lado de Sartre ♥.
Eu ainda poderia listar Clarice Lispector, Cecília Meireles, Hilda Hist, Lya Luft dente outras... mas quis trazer nomes que vocês talvez não conheçam ou estivessem acostumados a compartilhar como frases de efeito no facebook!
Eu não queria estar escrevendo isso. Não queria mesmo. Julho de 2014 tem sido um mês difícil e cruel.
Eu ia escrever sobre João Ubaldo e antes que começasse fui surpreendida pela morte de Rubem Alves.
Fiquei tão triste que não quis mais escrever nada. E então Ariano Suassuna apronta uma dessas...
Desde que soube a noticia ate agora, estou meio sem acreditar.
Não vou falar da importância desses três caras, nem de suas obras e nem o quanto a literatura perde com a partida deles. Eu me reservo apenas ao direito de ficar triste.
Cada leitor tem em seu autor preferido um amigo, mesmo que nunca tenha sequer visto ou esbarrado com ele em toda a vida.
"Eu gosto muito de rir e gosto de fazer rir. E nisso sinto que o povo brasileiro é meu companheiro."
Ariano Suassuna
Eu tinha esperanças de um dia, em uma Bienal qualquer, esbarrar com Ariano e pedir a ele um rabisco em um dos meus livros. Dele, mas meus. Queria ter a oportunidade de dizer o quanto sua obra me fez feliz, o quanto me diverti com seus personagens, o quanto gostei um pouco mais dele a cada declaração ou entrevista que via.
Quanto ao João, não fomos grandes amigos nessa vida. Confesso que mal o li. Mas não deixo de sentir sua perda por conta disso. Quando um escritor parte, ficamos órfãos do que ele ainda teria a escrever. Quantas ideias, quantos personagens e romances partem junto a ele? Jamais saberemos. Isso multiplica a sensação de perda. Dói fundo na alma de um leitor.
Mas e Rubem? Rubem, sempre tão querido. Sua ausência é uma lástima irreparável, Rubem! Sempre tão carinhoso em seu falar, tão terno e tão humano... O mundo precisa de mais mineirinhos como ele. Como todo bom mineiro, era quietinho, na sua, sem afetações e alardes.
Dizia que chegou onde chegou porque tudo que planejou deu errado, vejam só!
Foi com Rubem que aprendi uma das lições que me fizeram crescer muito como pessoa: "Ostra feliz não faz pérola". Acho linda a comparação que Rubem faz com a formação da pérola, para nos explicar que é a partir do sofrimento que crescemos. A pérola é um parasita externo ou um grão de areia que invade e machuca a ostra. Para se defender, a ostra o envolve com uma substância chamada madrepérola, que cristaliza-se e isola o invasor dentro de uma bolota rígida. A ostra, quando produz uma pérola, na verdade está lidando com um incômodo. Desejei a sabedoria de transformar os meus incômodos em pérolas também.
"A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar."
Rubem Alves
Agora, você Ariano... não consigo me conformar com sua partida.
Ainda não consegui ler A Pedra do Reino por completo, mas li seu Auto da Compadecida umas três vezes.
E nem sei dizer quantas vezes revi a adaptação para o cinema.
Você disse que não trocaria seu "oxente" pelo "ok" de ninguém e nós também não trocaremos, mestre. Se eu posso deixar aqui alguma homenagem, é em favor do seu legado.
Tem tanta gente que em nada nos acrescenta, que pelo contrário, nos subtrai... Tanta gente contribuindo para causas pequenas, tanta bobagem, tanta desgraça...
Deus, às vezes, nos presenteia com pessoas que deixam o mundo melhor. Pessoas que trazem, sabe-se-lá de onde, sua sabedoria e alegria para dividir com o resto de nós.
Gente como Rubem que trazia sempre uma palavra de conforto ou como João que com sua baianice nos deliciava com seu humor. Gente como Ariano, que achava a tarefa de viver dura e fascinante.
Gente que cisma em ser uma luz no meio de tantas trevas, gente que teima que a vida pode ser boa, pode ser melhor e pode ter poesia. Gente que fala o que sente para que a gente entenda o que sente também. Não importa se sentimos igual ou diferente.
Tem gente, que nunca vimos na vida (e nunca veremos), mas que sentimos que nos abraçam a alma.
Tem gente que nasce para ser imortal, embora com essa mania de partir antes do que deviam.
Uma vez, aprendi que só morre quem não deixa saudades. Muito mais do que saudades, João, Rubem e Ariano deixam suas palavras, sua arte e genialidade para nos confortar da saudade.
Escritores não morrem nunca!
Eis aqui nosso consolo e minha singela homenagem.
"Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre."
(Auto da Compadecida - Ariano Suassuna)
Para João, Rubem e Ariano
Vão em paz, mestres imortais!
Carolina! Na verdade se chama Ana Carolina e não gosta de ser chamada de Ana. Não revela a idade, mas todo mundo diz que aparenta bem menos. Fotógrafa e estudante de Jornalismo. Mudou de área depois de anos insatisfeita com a profissão. Carioca, apaixonante e implicante. Carinha de 8, espírito de 80 anos. Chata, mal humorada e anti-social. Gosta de rimas simples, de frases bobas e é viciada em café. Na vida passada foi um gato tamanha preguiça. Tem mania de ter manias, coleciona coisas inúteis e acha ridículo isso de falar de si mesma em 3º pessoa.